O Talentoso Ripley retorna ao Rio na Vieira Souto

Estrelada por Hugo Bonèmer, espetáculo propõe uma reflexão sobre desejo, mobilidade social e construção de imagem

Hugo Bonèmer em O Talentoso Ripley
Hugo Bonèmer também coassina a direção do espetáculo Crédito: Luan Rabelo/Divulgação

Se você acha que a obsessão por filtros e a curadoria de vida perfeita no Instagram são fenômeno da modernidade, sinto informar: Patricia Highsmith já tinha sacado tudo décadas atrás. E, convenhamos, nada mais apropriado do que discutir a construção (frequentemente frágil) de identidades em plena Vieira Souto. É nesse cenário, debruçado sobre o mar de Ipanema, que a versão brasileira de O Talentoso Ripley está com sua nova temporada na Casa de Cultura Laura Alvim, sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 19h.

Depois de uma estreia de sucesso, a peça volta para provar que o suspense psicológico de qualidade ainda tem fôlego no Rio. Esqueça o glamour solar da versão do cinema. Aqui, o clima é de true crime psicológico, com uma névoa de terror que não te deixa esquecer que o protagonista é, no fundo, um sociopata fascinante.

Hugo Bonèmer, que parece ter abraçado a filosofia do “se quer bem feito, faça você mesmo”, não apenas estrela a montagem, como também assina a direção (ao lado de Kamilla Rufino), a produção e a cenografia. Pode soar como um excesso de autoconfiança, mas, na prática, essa centralização funciona como um espelho da própria trama. Como a peça é narrada sob a ótica distorcida do próprio Ripley, faz todo o sentido que o olhar de quem idealizou o espetáculo esteja impregnado em cada milímetro do palco.

E por falar em entrega absoluta, Bonemer leva o conceito de “exposição” ao limite, com direito a um nu frontal em cena. Longe de ser um recurso gratuito para pescar manchetes, o momento sublinha a vulnerabilidade e a crueza desse Tom Ripley que, entre uma mentira e outra, acaba ficando literalmente despido diante do público. É corajoso, é estético e gera aquele burburinho que o teatro precisa para pulsar.

O elenco de apoio, que inclui nomes como Cassio Pandolfh, Guilhermina Libanio e João Fernandes, funciona como as peças de um tabuleiro movido pela paranoia do protagonista. Eles se desdobram em múltiplos personagens, o que só colabora para aquela sensação levemente angustiante de que ninguém é exatamente o que aparenta ser.

É irônico, de uma forma quase poética, ver uma obra que disseca a futilidade e o desejo de pertencimento ser encenada em um dos metros quadrados mais caros do país. Mas, honestamente? É o lugar perfeito. É teatro feito com entrega, sem medo de ser ácido e com uma atmosfera de suspense que te prende pela gola da camisa.

Se você perdeu a primeira rodada, agora não tem desculpa. A temporada é curta e vai só até 31 de maio. Vá pelo texto afiado da Highsmith, fique pela performance magnética do elenco e saia questionando se aquela sua foto espontânea nos Stories não é, no fundo, um pequeno momento Ripley.

Em tempos de “lifestyle” fabricado, Tom é, definitivamente, o santo padroeiro de quem “finge até conseguir”.

O Talentoso Ripley
Quando: Até 31 de maio; sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 19h
Onde: Casa de Cultura Laura Alvim (Av. Vieira Souto, 176 – Ipanema – Rio de Janeiro/RJ)
Ingressos: R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia entrada) – venda online

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