Imigração de Trump vira dor de cabeça e cria a Copa dos Excluídos

Mesmo escalado pela FIFA, árbitro Omar Abdulkadir Artan foi impedido de entrar nos EUA Crédito: Divulgação

Sediar uma Copa do Mundo costuma ser o ápice das relações públicas de uma nação. A premissa básica, afinal, é convidar o planeta para a sua casa, faturar bilhões e fingir, por um mês, que a humanidade é uma grande e harmoniosa arquibancada. Mas, na atual gestão de Donald Trump, os Estados Unidos parecem ter esquecido do detalhe mais elementar do termo Copa do Mundo: o mundo.

O que se desenha para o torneio não é uma celebração do esporte, mas um monumental – e caríssimo – exercício de esquizofrenia diplomática e comercial. O símbolo máximo dessa paranoia burocrática não veste chuteiras, mas o uniforme de arbitragem. O somali Omar Abdulkadir Artan, devidamente escalado pela FIFA para o torneio, chegou aos Estados Unidos munido não apenas de um visto aprovado anteriormente, mas de um passaporte diplomático concedido em Nairóbi.

A resposta da imigração americana? Um sonoro e inexplicável “volte por onde veio”. Artan foi sumariamente despachado de volta para Istambul, sem que nenhuma autoridade se desse ao trabalho de articular uma justificativa razoável. É o requinte da grosseria institucionalizada: barrar a autoridade que você mesmo permitiu que fosse convidada para trabalhar.

Mas o show de horrores logístico não para por aí. O caso da seleção do Irã atinge o patamar da humilhação. Por imposições das políticas migratórias vigentes, a equipe iraniana está proibida de permanecer em solo americano entre as suas próprias partidas no torneio. A dinâmica imposta é tão simples quanto absurda: o time entra no país, joga e é convidado a se retirar logo em seguida, precisando bater em retirada a cada apito final. O técnico da seleção já vocalizou a indignação óbvia diante da limitação, que transforma a preparação e o descanso de atletas de elite em uma exaustiva gincana de aeroporto.

É o momento em que a sanidade pede licença: é evidente o direito de qualquer país decidir quem entra em seu território. Mas, francamente, por que se dar ao trabalho de sediar uma Copa do Mundo e uma Olimpíada com essa mentalidade de bunker? Se o filtro está tão implacável agora, a imaginação pena para calcular a quantidade de atletas que serão barrados nos futuros jogos de Los Angeles.

O que assistimos é um vexame histórico. Nunca, em toda a trajetória das Copas, se viu algo sequer parecido. Como bem notado por jornalistas esportivos, até nos absurdos Jogos de Berlim, sob a sombra da Alemanha nazista, houve o mínimo esforço para simular normalidade e simpatia durante as competições. Levar um evento global, que exige que todos os participantes — atletas, comissões e dirigentes – tenham total liberdade de locomoção, para um país que adota posturas tão retrógradas, é um erro de cálculo brutal da FIFA. Inadmissível é pouco.

Enquanto a imigração joga duro para a plateia interna, a economia americana sofre um baque de proporções continentais. A cruzada contra estrangeiros está cobrando um preço astronômico e esvaziando a Copa antes mesmo de a bola rolar. Com ingressos encalhados e preços que desafiam qualquer bom senso, a falta de procura turística é apenas o sintoma mais visível de uma doença maior.

O setor de turismo nos Estados Unidos amarga uma perda estimada em mais de US$ 12,5 bilhões apenas no último ano, cortesia direta dessa “mudança de sentimento” global. Dados do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC) mostram uma queda brutal no número de visitantes internacionais – com retrações mensais batendo a casa dos 12% em comparação a períodos anteriores. Isso impacta frontalmente o PIB e o mercado, já que o turismo representa um dos maiores pilares de exportação de serviços dos EUA. Redes hoteleiras, companhias aéreas e o varejo já sentem o tombo.

No fim das contas, tentar lucrar com a globalização enquanto se erguem muros invisíveis na porta de cada aeroporto é um modelo de negócios fadado ao fracasso. A letargia na venda de ingressos é o reflexo natural do turista diante de um país que cobra caríssimo para te receber, mas te olha com a simpatia de um cão de guarda. Resta saber se, com arquibancadas ecoando vazias e delegações operando em regime de bate-e-volta, as autoridades vão finalmente entender que não se faz um evento mundial fechando a porta na cara do mundo.

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