A majestade e o tempo: aos 68 anos, Madonna reabre o VMA e lembra ao pop quem manda
A cerimônia, marcada para 27 de setembro em Los Angeles, terá Snoop Dogg como anfitrião
O pop contemporâneo vive um momento de bocejo generalizado. Entre coreografias craftadas para viralizar no TikTok e refrões que soam como notificação de celular, o Video Music Awards 2026 precisava de um nome capaz de restaurar alguma dignidade ao espetáculo. A MTV, sabiamente, recorreu à única artista com autoridade moral para isso. Aos 68 anos, Madonna vai abrir a cerimônia com sua primeira apresentação no palco do VMA em 23 anos.
A última vez que a cantora se dispôs a cantar ao vivo na premiação foi em 2003, episódio que entrou para os anais da cultura pop graças ao beijo triangular com Britney Spears e Christina Aguilera — um gesto que, à época, escandalizou as boas famílias americanas e hoje soa quase pudico perto do que se passa por ousadia nas redes. Duas décadas depois, e com o auxílio generoso de uma ciência estética que ela nunca fingiu dispensar, Madonna não retorna como relíquia de museu a ser aplaudida por nostalgia. Retorna para competir.
E compete bem. Impulsionada pelo sucesso comercial e crítico do novo álbum, a artista lidera com folga a lista de indicações do VMA 2026, com onze categorias ao todo. Entre os indicados, ela disputa Artista do Ano, Vídeo do Ano por Confessions II – The Film e Canção do Ano por Bring Your Love, parceria oportuna com a queridinha do momento, Sabrina Carpenter — uma escolha de casting tão calculada quanto eficiente.
Há algo de quase cômico, e definitivamente instigante, na relação de Madonna com a passagem do tempo. Ela combate o etarismo do jeito mais polêmico possível: recusando-se, com unhas e dentes, a parecer a idade que tem. É legítimo apontar o esforço monumental por trás dessa juventude perpétua — os filtros, os procedimentos, a dermatologia de fronteira que sustenta a ilusão. Mas seria injusto reduzir tudo a vaidade: o fato é que ela entrega. Enquanto o mundo insiste em empurrar mulheres depois dos sessenta para o armário do cardigã de tricô, Madonna calça o coturno, veste o couro e expõe mais vigor de palco do que artistas com um terço de sua idade. Não é elegância discreta — é provocação deliberada, e funciona.
A cerimônia, marcada para 27 de setembro em Los Angeles, terá Snoop Dogg como anfitrião. Mas a noite, convenhamos, já nasceu com dona. Ao desembarcar no evento na condição de disputar seu vigésimo prêmio na história da premiação — os dezenove troféus competitivos somados ao Video Vanguard Award recebido em 1986 —, Madonna reforça uma verdade incômoda para a indústria: ela pode travar uma batalha visivelmente perdida contra o relógio, mas continua sendo ela quem dita a hora do show.
