Café Lamas reabre após quatro meses – e com ajuda da concorrência

Restaurante mais antigo do Rio reabre nesta quarta (21)

Tradição continuará sendo servida à mesa Crédito: Alexandre Macieira/Riotur

O Café Lamas volta a receber o público nesta quarta-feira (21), depois de quatro meses fechada. É o período mais longo de portas fechadas desde que o português Francisco Tomé dos Santos Lamas abriu o negócio no Largo do Machado, em 1874.

Em 152 anos o estabelecimento fechou as portas pouquíssimas vezes, e quase sempre por motivos que hoje estão nos livros de história. Fechou na Revolta da Vacina, em 1904, e no dia do enterro de Getúlio Vargas, em 1954. Em 2026 o motivo foi bem mais prosaico. Por volta das 17h30 de 16 de junho, uma fritadeira pegou fogo na cozinha. O Corpo de Bombeiros controlou as chamas em cerca de uma hora e ninguém se feriu. O estrago ficou concentrado na cozinha, mas a fumaça chegou ao salão, que precisou ser pintado de novo. Parecia coisa de poucas semanas, mas não foi.

Entre o fogo e a reabertura, a seguradora também teve seu papel. O Lamas tinha seguro para esse tipo de acidente, mas a indenização, como costuma acontecer, demorou mais do que a emergência permitia. Foi aí que a história tomou um rumo improvável num setor que costuma disputar cliente na base da promoção de happy hour.

Ricardo Garrido, sócio-fundador da Cia. Tradicional de Comércio, dona do Pirajá e da Bráz Pizzaria, e Mariana Rezende, do Bar da Frente, lideraram o movimento #JuntosPeloLamas. Entre 31 de julho e 2 de agosto, 25 bares e restaurantes do Rio e de São Paulo venderam pratos e drinques criados para a ação e destinaram o dinheiro à obra. Entre eles estavam o Bracarense, o Bar da Gema, o Bode Cheiroso e o Velho Adonis. Ver concorrentes pagando a cozinha de outro concorrente é coisa rara na noite carioca, quase tão rara quanto chope servido sem colarinho.

“Como um apaixonado pelo Rio de Janeiro, tenho certeza que bares centenários como o Lamas não podem fechar, porque eles são a própria história da cidade”, diz Garrido. Mariana segue a mesma linha: “O fechamento de um bar tão antigo e importante para a cidade seria uma perda irreparável para o Rio e para o nosso setor. A prontidão de todos os bares nessa ação mostra que um setor unido é um setor mais forte”.

O apelo sentimental tem base. Segundo a tradição oral, Machado de Assis e Olavo Bilac frequentaram a casa ainda no Império. Há registros de que a ideia de criar o Clube de Regatas do Flamengo surgiu num encontro de remadores no Lamas, em 1895. Em 1902, os fundadores do Fluminense comemoraram ali a criação do clube. Talvez seja o único endereço da cidade ligado ao nascimento dos dois rivais sem que ninguém tenha saído brigado. Getúlio Vargas tomava chá no Lamas, e Oswaldo Aranha almoçava lá.

Nos anos 1970, as obras do metrô obrigaram a casa a sair do Largo do Machado e ir para a Rua Marquês de Abrantes, no Flamengo, a uns 500 metros dali. Mudou o endereço, mas ficaram o balcão, o cardápio e uma clientela que trata o salão como uma extensão da própria sala de jantar.

Quem espera novidades pode esquecer. O cardápio volta exatamente como estava, e a graça está justamente nisso. O filé à Oswaldo Aranha, o filé à francesa e o filé à parmegiana dividem preferência com o bolinho de bacalhau e o chope Brahma.

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