Equilibrivm II: Como Anitta fez do terreiro a maior obra de arte do pop nacional
Álbum e visuais são aclamados (com justiça) por público e crítica
Lançado estrategicamente na última quinta (23) — e se você acha que o calendário cair justamente no dia consagrado a Logun Edé, orixá de cabeça da cantora, é mera coincidência, francamente, você está prestando atenção na artista errada —, Equilibrium II é um golpe em quem ainda insistia em reduzir Anitta a um mero algoritmo de rebolado de exportação.
Enquanto a crítica especializada e o público congestionam a internet bradando que o gramofone do Grammy já tem dona, é ironicamente revigorante notar o óbvio: em uma indústria pop viciada em métricas artificiais e dancinhas esquecíveis, a cantora decidiu construir uma obra audiovisual monumental.
O álbum e seu curta-metragem formam um mergulho cinematográfico e espiritual nas águas do Candomblé, da Umbanda e da música popular brasileira, executado com um rigor técnico que deixaria muito autoproclamado intelectual completamente sem ação
Dirigido por Nídia Aranha e pela Ginga Pictures, o curta-metragem que acompanha o lançamento passa muito longe de ser apenas uma colagem de videoclipes luxuosos. Trata-se, na verdade, de uma narrativa linear e densa sobre iniciação espiritual.
O roteiro acompanha o amadurecimento de uma protagonista que adentra o terreiro em busca de proteção, sobrevive a um rigoroso processo de limpeza da alma, atinge o ápice da iluminação e sai de lá pronta para encarar o caos do mundo exterior. Para materializar esse delírio estético e narrativo, Anitta esnobou a estética intimista do primeiro volume e ergueu uma cidade cenográfica faraônica no Rio de Janeiro.
Aos olhos menos treinados, as imagens podem até soar apenas como uma profusão de cores impressionante, mas a artista escondeu referências perspicazes que exigem atenção redobrada. Há momentos de vulnerabilidade autêntica que dispensam qualquer pose de superestrela.
Na emblemática cena da leitura de cartas, a carta da Morte não desponta como uma ameaça grotesca, mas como passagem e rendição — o reconhecimento tácito de tudo que precisou morrer para que o novo nascesse. Para os obcecados por detalhes, o vídeo de encerramento ainda lança luz sobre easter eggs brilhantes: referências quase imperceptíveis aos dias em que a cantora esteve internada entre a vida e a morte, recortes visuais do famigerado ônibus de Girl From Rio e alusões às vielas de Funk Generation.
O que eleva o projeto da vala comum do entretenimento é a recusa taxativa ao caminho mais fácil. A produção detalha metáforas visuais exatas de rituais litúrgicos de iniciação. A raspagem simbólica do ego se materializa quando Anitta é vista abandonando joias caríssimas; os cenários claustrofóbicos e escuros das primeiras cenas emulam a reclusão silenciosa do Ronkó; e a água com folhagens desabando em câmera lenta mimetiza poeticamente o Amaci, o banho sagrado de ervas.
Mais do que isso, as cansativas coreografias padronizadas dão lugar ao transe artístico, com o corpo da cantora reproduzindo os movimentos viscerais do Xirê. E, coroando a simbologia, está a já antológica imagem da artista equilibrando o “carrego” na cabeça, uma constatação lírica de quem finalmente aceitou o peso e a responsabilidade do seu próprio axé.
A indumentária segue a mesma ambição e merece um capítulo à parte. O figurino, curado com precisão cirúrgica por Daniel Ueda ao lado do soteropolitano Ateliê Mão de Mãe, abraça a ancestralidade brasileira sem resvalar na caricatura. A moda aqui é pautada por crochês, cabaças, rendas richelieu e palhas.
Há também um brilhante resgate da estética dos anos 1930 na figura de Carmen Miranda. Ao adaptar os turbantes e balangandãs da Pequena Notável em uma roupagem de alta-costura contemporânea, o filme tece uma crítica afiada sobre apropriação cultural, devolvendo a estética clássica das baianas, que um dia Hollywood comodificou, ao seu legítimo berço no terreiro.
A genialidade narrativa do curta reside em respeitar a ordem litúrgica dos orixás com uma fidelidade inegociável, amarrando cada faixa a uma entidade específica. A jornada começa, invariavelmente, com Ogum Me Rodeia. Empregando o tom majestoso de Maria Bethânia como uma prece falada, a tela é inundada por espadas e tons de azul-escuro e aço. Aqui, a blindagem de Ogum esconde um manifesto contundente e necessário de defesa contra a intolerância religiosa que Anitta sofreu ao longo dos anos.
Como nada na tradição se faz sem antes abrir os caminhos, o segundo passo é a saudação a Exu em Feitiço. Banhada em vermelho vibrante e preto, a faixa traz a voz rouca de Mart’nália e um sample genial de J.B. de Carvalho, subvertendo maliciosamente o conceito ocidentalizado da palavra feitiço, que deixa de ser uma maldição vil para se consolidar como puro encanto e vitalidade.
Quando o pacto de proteção está selado, a narrativa avança para a fase de purificação. A faixa Azul, uma versão hipnótica do clássico de Djavan, é inteiramente dedicada a Yemanjá. Mergulhada em tons de azul-claro, branco e no brilho prateado do abebê, a canção transmuta o amor romântico original da letra em uma reverência devocional, simbolizando o colo materno e a limpeza absoluta das depressões da alma.
O ápice da introspecção espiritual, porém, chega com Contemplação. Gravada com o Grupo Ofá em puro iorubá arcaico, a tela é esvaziada de estímulos para dar lugar ao branco absoluto de Oxalá. O enorme manto flutuante na cena representa o Alá, o tecido sagrado que cobre as cabeças dos iniciados, exigindo a paz e o distanciamento total do caos moderno. A vaidade retorna sob a regência das águas doces em Pra Você Gostar de Mim. O dourado e o amarelo-gema dominam a estética, saudando Oxum e a força do sagrado feminino com a marchinha carnavalesca de Carmen Miranda como pano de fundo sonoro.
Caminhando para o desfecho, o curta acena para a resistência política. Oke, faixa com Katú Mirim e os Brô MC’s, inunda os visuais com o verde-mata e o marrom-terra de Oxóssi e dos caboclos. Sampleando a batida de abocla de Pena e cruzando-a com rimas em guarani, a música esconde uma mensagem impossível de ignorar: o equilíbrio deste país só existirá de fato quando houver respeito aos espíritos originários da floresta e a devida demarcação das terras indígenas.
A epifania final acontece na faixa-título Equilíbrio, que encerra a odisseia batendo de frente com a dualidade do número dois. O marrom-terracota e a justiça de Xangô colidem com o vento e a rebeldia bordô de Iansã, atestando que a estabilidade não é a ausência de problemas, mas a capacidade de resistir à tempestade. A profusão final de cores vibrantes não é acidental; é a representação visual da Festa de Nome, o momento em que a iniciada volta para a sociedade, coroada e dona de si.
Para estruturar essa odisseia, a cantora reuniu uma tracklist que desafia a lógica dos departamentos de marketing das gravadoras. Colocar na mesma roda de samba, funk, reggae e bossa nova nomes tão díspares quanto Alceu Valença, Alexandre Carlo, Mestrinho, MC Tha, Letícia Fialho, Kbrum, King Saints e Los Brasileros, e ainda assim soar absurdamente coeso, exige uma audácia que hoje está em falta na música pop.
Ao abraçar suas entidades e despir-se da estética plastificada que a indústria tanto exige das mulheres, Anitta prova que não está mais preocupada em tentar explicar o Brasil para os estrangeiros; ela finalmente decidiu explicar a si mesma para os brasileiros. O veredito é inquestionável: o jogo virou, e quem dá as cartas agora é ela.
