Booking.com reajusta comissão e mercado se diz sufocado
Plataformas esmagam margens de pousadas e hotéis independentes e quem pagará a conta será o turista
Nas últimas semanas, o mercado hoteleiro brasileiro foi tomado por uma onda de choque e previsível indignação. O motivo da vez? A Booking.com, onipresente monopolista das reservas on-line, deu um salto em sua comissão sobre as diárias alcançando até 18% para os hotéis. No caso de pousadas mais antigas na plataforma, o índice pulará dos já incômodos 13% para 15%.
A justificativa corporativa enviada aos parceiros é aquele clássico manual de relações públicas: fala-se em “investimentos contínuos em marketing, suporte 24 horas e melhorias tecnológicas”. A tradução realista e financeira, contudo, é muito mais direta. A Booking Holdings registrou um aumento de 5,56% no lucro no primeiro trimestre de 2026. E acionistas de empresas de capital aberto, como o mundo carece de saber, são entidades insaciáveis que exigem gráficos sempre apontando para cima.
A reação do setor foi imediata e protocolar. A Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), que reúne a elite da hospitalidade nacional, lançou um manifesto formal de repúdio. A CEO da entidade, Camilla Barretto, fez questão de lembrar que o turismo de alto padrão no país é sustentado por empresas independentes que sangram com mudanças repentinas. Segundo a associação, 75% dos seus associados possuem menos de 60 unidades habitacionais e operam com folhas de pagamento altíssimas para garantir um serviço de excelência. O recado das entrelinhas do manifesto é cristalino: qualquer redução numa margem de lucro que já é apertada será fatalmente repassada ao cliente final. Em bom português, a diária daquele refúgio no litoral e na montanha vai ficar sensivelmente mais cara.
Mas há uma ironia inescapável em toda essa choradeira institucional. Reclamar que uma mega corporação de tecnologia busca maximizar seus lucros é como se surpreender com o fato de a chuva molhar. A Booking não é uma ONG de fomento ao turismo brasileiro; é uma máquina de fazer dinheiro. O verdadeiro ponto fraco não reside na óbvia ganância do Vale do Silício, mas na letargia crônica de proprietários que transformaram uma plataforma de vitrine em um aparelho de suporte vital. Quem terceiriza seu departamento de vendas quase inteiramente para um algoritmo não pode de se espantar quando o dono do algoritmo decide cobrar mais caro pelo aluguel do espaço.
Essa dinâmica predatória não é exclusividade desta ou daquela marca. Basta olhar para o lado e observar o movimento muito semelhante feito nas políticas e tarifas do Airbnb. Ao forçar a adoção do modelo “Host-Only Fee” (taxa exclusiva do anfitrião), a plataforma consolidou uma comissão de 15% inteiramente nas costas dos proprietários, eliminando a taxa que antes era escancarada para o hóspede. A manobra criou a brilhante ilusão de preços mais competitivos para quem aluga a propriedade, enquanto asfixiava as contas de quem hospeda. Qual foi o resultado prático da intervenção do Airbnb? Proprietários simplesmente embutiram esses 15% no valor base da diária. O hóspede pagou a conta inteira, com a ingênua certeza de que estava fazendo um negócio formidável.
O mercado de hospedagem vive um choque de realidade que já vem com atraso. Depender de modo cego de gigantes da tecnologia para existir significa trabalhar duro apenas para enriquecer acionistas estrangeiros. Até que o setor hoteleiro aprenda a usar essas ferramentas pelo que elas realmente são — um canal de aquisição de clientes, e não a única tábua de salvação da empresa —, o roteiro continuará rigorosamente o mesmo. As big techs vão bater recordes trimestrais de faturamento, as associações de classe vão redigir compridas notas de repúdio, e o turista continuará bancando a ineficiência de um modelo de negócios que, por comodismo, terceirizou a própria alma.
