Obra de arte: Entenda o curta lançado por Madonna

Com um curta de 13 minutos com músicas trancadas a sete chaves, a rainha do pop ensina ao mercado que a ansiedade ainda é o marketing mais letal

Madonna redefine a lógica de lançamento na indústria audiovisual Crédito: Reprodução

A engrenagem do pop contemporâneo é de uma previsibilidade entediante. O mercado atual está viciado na dopamina barata da entrega imediata: você lança uma música no streaming e, para empurrar o consumo, joga um videoclipe ou um álbum visual superproduzido na cara do público. Mas Madonna, com a acidez e o sadismo de quem dita o ritmo dessa pista há quatro décadas, decidiu simplesmente sequestrar a indústria com o lançamento do curta-metragem de Confessions II.

O que ela fez aqui é a antítese de como a máquina funciona. A genialidade da coisa toda reside em uma crueldade mercadológica brilhante: ela lançou um filme de treze minutos estruturado ao redor de seis faixas, sendo que quatro delas são verdadeiros fantasmas que não estão disponíveis em absolutamente nenhum lugar. Você, mero mortal, só tem a permissão de ouvi-las em fragmentos meticulosamente cortados dentro da obra. E depois? Depois, você engole a seco e fica esperando pelo álbum, que só aterrissa no dia 3 de julho.

Todo mundo que deu o play nesse projeto terminou os treze minutos perdidamente apaixonado por melodias que não pode possuir agora. Isso é de uma inteligência perturbadora — uma reinvenção visceral e necessária da já desgastada dinâmica de lançamento de discos. Enquanto o resto do mercado fonográfico gasta milhões usando visuais para promover o que já está na prateleira para consumo imediato, Madonna usa o audiovisual para promover a escassez. Ela comercializa a urgência pelo inacessível, elevando a antecipação pelo álbum a níveis limítrofes da histeria.

Mas o projeto passa longe de ser apenas um truque de retenção de público. O filme em si é um mergulho profundo, prepotente e fascinante em uma inebriante nostalgia de si mesma — um autêntico manual de como manter uma relevância inquestionável reverenciando o próprio umbigo. O curta é um campo minado de easter eggs para quem tem bagagem o suficiente para captar.

A cena em que ela dança sobre a mesa do apartamento não é um delírio aleatório: é uma costura fina entre a coreografia do clipe de Die Another Day e os números apoteóticos da Confessions Tour. A lufada de vento do secador de mãos no banheiro? Um piscar de olhos cínico a Procura-se Susan Desesperadamente. Sabrina Carpenter, o ídolo teen do momento, não está ali por acaso; ela aparece ajoelhada numa recriação indireta do clipe de Lucky Star. E por falar no banheiro, a imagem de Madonna envelopada num vestido turquesa plastificado é um soco visual que remete diretamente à capa de Ray of Light, enquanto o rapaz de boina ao seu lado presta uma homenagem sutil a Martin Burgoyne, artista, ex-colega de quarto e grande amigo de Madonna no submundo nova-iorquino do início dos anos 80, levado precocemente pela Aids.

A acidez da direção não poupa nem as próprias polêmicas: quando a música sussurra a palavra “cocaine”, a câmera corta milimetricamente para uma participação especial de Kate Moss – uma ironia cortante e maravilhosa que só quem já sobreviveu aos tablóides dos anos 90 e 2000 poderia assinar. Há ainda a batida de carro resgatando a agressividade de What It Feels Like for a Girl, a filha Lourdes Leon “Lola” desfilando seu magnetismo genético, mulheres devorando bananas (um aceno à orgia visual de Deeper and Deeper), e as “cameragirls” caminhando com a mesma atitude predatória dos dançarinos de Justify My Love.

Sonoramente, essa ode ao próprio legado tem os pés fincados no futuro, e Madonna não teve o menor pudor de trocar as peças de seu tabuleiro para garantir que a pista de dança estivesse impecável. O recado sonoro soa, inclusive, como um tapa de luva de pelica em William Orbit. A relação com o produtor britânico, que já vinha azedada desde o fiasco de vendas de MDNA (2012), ruiu em praça pública no ano passado. Em junho de 2025, Orbit foi às redes choramingar sobre Veronica Electronica – o projeto de remixes do consagrado Ray of Light –, alfinetando que a obra “poderia ser algo muito melhor” e soava como “uma imitação”.

Madonna, que não tem tempo para ressentimentos, simplesmente trancou a porta. Para o novo álbum, ela resgatou a sua inegável e histórica química com Stuart Price, o grande arquiteto do Confessions on a Dance Floor original, e, num golpe de mestre, injetou sangue novo recrutando Cirkut e Andrew Watt – ninguém menos que a dupla de produtores responsáveis por Mayhem, o elogiado disco de Lady Gaga. O resultado desse laboratório de egos? “Danceteria”. A faixa, assinada por Watt e Cirkut, não só é o clímax do curta-metragem, como já desponta como o hino supremo e a melhor música de Confessions II até agora.

No fim das contas, enquanto o mercado insiste em mastigar e cuspir tendências de fim de semana, Madonna entrega cinema, provoca a memória, instiga e tranca as músicas no cofre. Ela não quer que você ouça a música dela hoje. Ela quer que você enlouqueça até o dia 3 de julho. E a verdade, incômoda para muitos, é que ela continua conseguindo exatamente o que quer.

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