O desabafo de Erika Hilton revelou mais do que uma disputa por dinheiro dentro do PSOL

Embate pode revelar futuro de estrelas do partido

Deputada acusou partido de descumpri acordos Crédito: Reprodução/Instagram

O que começou como uma discussão sobre fundo eleitoral acabou expondo um dos temas mais sensíveis dos bastidores da esquerda brasileira: o futuro das principais estrelas do PSOL. Ao afirmar que ela e outras lideranças “decidiram ficar” no partido para ajudá-lo a superar a cláusula de barreira, Erika Hilton trouxe para o debate público uma negociação que, até então, era comentada principalmente nos bastidores da política.

A declaração veio em meio a um duro ataque da deputada federal à direção nacional do PSOL: em suas influentes redes sociais, Hilton acusa o partido de descumprir acordos firmados com lideranças que optaram por permanecer na legenda para fortalecer sua bancada em 2026.

Segundo ela, a distribuição prevista dos recursos eleitorais estaria privilegiando dirigentes partidários e candidaturas recém-chegadas à sigla, enquanto nomes já consolidados eleitoralmente estariam sendo deixados em segundo plano. A deputada afirma, inclusive, haver um recorte de raça, classe, gênero e sexualidade, dado que muitas das candidaturas desprestigiadas seriam de pessoas negras, periféricas e LGBTQIA+.

As críticas foram acompanhadas por manifestações semelhantes da liderança nacional do Movimento Vida Além do Trabalho, o vereador Rick Azevedo, bem como da deputada estadual Renata Souza (RJ), do deputado Carlos Giannazi (SP) e diversas outras lideranças eleitas pela legenda. Em comum, todos questionam os critérios adotados pela direção nacional e acusam o partido de abandonar mecanismos que historicamente buscaram priorizar mulheres, pessoas negras, membros da comunidade LGBTQIA+ e outras candidaturas subrepresentadas.

A resposta do PSOL veio rapidamente. A direção partidária negou as acusações e afirmou que Erika Hilton deverá receber o maior investimento entre todas as candidaturas proporcionais da legenda em 2026. O partido sustenta que os critérios ainda estão em discussão e rejeita a ideia de que tenha abandonado políticas de inclusão.

Mas, para além da disputa sobre recursos, a crise reacendeu uma questão que acompanha o PSOL há anos. Nos bastidores, é frequente a avaliação de que parte das principais lideranças eleitorais do partido vem se aproximando cada vez mais do campo político liderado pelo presidente Lula. Essa divisão ficou evidente durante o debate sobre uma possível federalização entre PSOL e PT, que provocou intensas disputas internas, trocas públicas de críticas e embates nas redes sociais entre dirigentes, parlamentares e militantes da legenda. Na ocasião, setores ligados a Guilherme Boulos e Hilton defenderam uma maior integração com o campo governista, sendo fragorosamente derrotados pelos que defendiam uma posição de “autonomia cooperativa” em relação ao PT – o que já ocorria por todo mandato do presidente Lula.

De fato, a própria fala da deputada, ao destacar que ela e outras lideranças decidiram permanecer na sigla para ajudá-la a superar a cláusula de barreira, foi interpretada por setores internos como um reconhecimento de que a permanência desse grupo no partido resultou de um entendimento político específico e temporário, e não de uma convergência permanente de projeto. Tal entendimento seria, também, compartilhado por outras figuras eleitas, o que prenuncia a possibilidade concreta de eventual migração de nomes frustrados com este status quo. 

Essa percepção é acompanhada, nos últimos meses, pela saída de quadros regionais relevantes do PSOL para partidos da federação formada por PT, PCdoB e PV. Entre os exemplos mais citados estão Benny Briolly (RJ), Thabatta Pimenta (RN) e Bela Gonçalves (MG). Por outro lado, o partido também passou a atrair nomes de grande projeção nacional, como Duda Salabert (MG), Jones Manoel (PE) e Manuela D’Ávila (RS), movimento que pode reequilibrar as perdas – concretizadas ou futuras – e fortalecer sua capacidade de enfrentar a cláusula de barreira nos próximos anos, que ameaça cercear o partido de financiamento público a partir dos próximos anos. Este cenário catastrófico reduziria drasticamente sua estrutura, competitividade eleitoral e capacidade de expansão nacional.

Por isso, o conflito vai muito além do fundo eleitoral: o que está em jogo é a própria configuração da esquerda brasileira nos próximos anos. Este conflito foi, portanto, apenas o estopim, uma centelha visível de um problema estrutural maior. O que a crise revelou é que uma parte significativa das principais lideranças eleitorais do PSOL já discute, ainda que de forma indireta, qual será seu futuro político para além do próprio partido, e essa talvez seja a discussão que mais preocupa sua direção nacional e eleitores.

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