Entre muros e turistas: como o endurecimento político dos EUA pode afetar a Copa
País enfrenta dilema em receber turistas do mundo inteiro em meio a endurecimento migratório
Sob o segundo governo de Donald Trump, os Estados Unidos vivem uma contradição evidente: enquanto se preparam para sediar o que vem sendo chamado de a maior Copa do Mundo da história, aprofundam políticas de deportação em massa, endurecimento migratório e discursos cada vez mais hostis ao estrangeiro. O clima político já preocupa setores ligados ao turismo internacional justamente no momento em que o país precisará receber milhões de visitantes.
Historicamente, esporte e política raramente caminham separados. Em 1936, a Alemanha nazista utilizou os Jogos Olímpicos como vitrine internacional do regime de Adolf Hitler. Décadas depois, os boicotes olímpicos da Guerra Fria transformaram Moscou-1980 e Los Angeles-1984 em extensões simbólicas da disputa entre Estados Unidos e União Soviética. Os contextos são distintos, mas há um ponto em comum: megaeventos costumam revelar e amplificar as tensões políticas do seu tempo.
A Copa movimenta muito mais do que estádios lotados. O torneio depende de aeroportos funcionando como corredores globais, fronteiras fluidas, vistos rápidos e turistas dispostos a circular entre cidades, hotéis e centros culturais. Nesse cenário, a percepção importa tanto quanto a infraestrutura.
Nos últimos meses, o endurecimento do discurso migratório voltou ao centro da política americana. Promessas de ampliar deportações, reforçar a vigilância nas fronteiras e endurecer políticas contra imigrantes passaram a ocupar espaço central na comunicação da Casa Branca.
Com isso, para parte do público internacional, especialmente latino-americanos, árabes e africanos, viajar aos Estados Unidos começa a envolver um novo receio: medo de constrangimentos migratórios, abordagens excessivas ou hostilidade institucional. Visitar o país deixa de parecer apenas uma decisão financeira e passa a envolver cálculo político e sensação de insegurança.
A contradição se torna ainda mais evidente na Copa. Ao mesmo tempo em que os EUA tentam atrair turistas e consolidar sua imagem como centro global do entretenimento esportivo, transmitem ao exterior sinais crescentes de fechamento e desconfiança em relação ao estrangeiro.
O turismo internacional está entre os setores mais sensíveis à deterioração da imagem de um país. Muitas vezes, basta a percepção de hostilidade para impactar o fluxo turístico e afetar cidades como Miami, Los Angeles, Houston e New York City, que esperam arrecadar bilhões de dólares com o turismo durante o mundial. Hotéis, restaurantes, companhias aéreas e o comércio local dependem diretamente desse fluxo, mas essa engrenagem econômica exige algo difícil de mensurar: sensação de acolhimento.
Segundo dados do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC), os Estados Unidos registraram queda de cerca de 6% no turismo internacional em 2025 – com quedas pontuais alcançando valores superiores a 11% -, enquanto o restante do mundo manteve trajetória de crescimento no setor. Relatórios do mercado apontam que o endurecimento migratório, o aumento da vigilância nas fronteiras e o desgaste da imagem internacional americana já impactam diretamente o fluxo de visitantes estrangeiros e a arrecadação ligada ao turismo.
Existe ainda uma dimensão cultural impossível de ignorar: a Copa de 2026 dependerá profundamente das comunidades latinas nos Estados Unidos. São elas que historicamente sustentam a cultura do futebol no país, lotam amistosos internacionais e movimentam parte significativa do consumo esportivo ligado ao torneio. Sem a presença massiva de torcedores mexicanos, centro-americanos e sul-americanos, alguns já temerosos de abordagens migratórias ou da instrumentalização do evento por agentes do ICE, a própria atmosfera da competição perde força.
Em 2026, os Estados Unidos terão diante de si um desafio mais complexo: convencer o mundo de que continuam sendo um destino capaz de receber estrangeiros em meio a um ambiente político cada vez mais marcado pelo medo, pela vigilância e pelo fechamento de fronteiras. Porque, no fim, nenhuma Copa do Mundo se sustenta apenas com estádios lotados: ela depende, sobretudo, da sensação de que o mundo é bem-vindo.
