A assinatura de Ignácio Peixoto chega ao Itsáry

Em consonância com revitalização do Centro do Rio, chef eleva padrão gastronômico da região

Ignácio Peixoto apresente menu que respeita sazonalidade e a cadeia produtiva Crédito: Divulgação

Há uma certa magia em se sentir estrangeiro na própria cidade. No trecho da Rua Franklin Roosevelt onde os sotaques se misturam – entre as malas de quem acaba de aterrissar no Santos Dumont, o multiculturalismo dos consulados e a sobriedade dos engravatados – o Itsáry surge não apenas como um restaurante, mas como um ponto de intersecção.

Quem passa pela porta e observa a cozinha aberta ladeada por poucos lugares nas mesas e balcão, pode cair na armadilha de achar que se trata apenas de um apertadinho charmoso para um almoço rápido. Ledo engano! A alma da casa se revela para quem avança. Quase oculto, um grande subsolo se abre ao fundo, revelando um salão calmo e silencioso. É um verdadeiro oásis escondido sob o asfalto frenético do Centro.

A trilha sonora – uma curadoria fina de música brasileira – te transporta para uma viagem sensorial pelo país, enquanto a cozinha dita o ritmo. É um refúgio despretensioso para quem busca a essência carioca sem os clichês de cartão-postal.

Depois de anos emprestando seu talento a grandes grupos e conquistando o título de Chef Revelação de VEJA RIO Comer & Beber, Ignácio Peixoto finalmente pisa em solo 100% autoral. E faz isso com uma maturidade admirável. O nome, de origem Xavante, evoca raízes, mas a execução é pura pulsação urbana.

Esqueça menus engessados, aqui quem manda é a terra e o mar. É uma cozinha viva, que respeita a sazonalidade e a cadeia produtiva com rigor. O chef é um garimpeiro de ingredientes, trazendo, por exemplo, o queijo de cabra da Fazenda Genève e os orgânicos da Mawi Farm para o centro do palco.

Na mesa, a jornada começa com o Creme de Ostras, um prato que é uma aula de técnica e equilíbrio. As ostras defumadas na brasa ganham o frescor ácido da maçã verde e alga wakame. É mar puro, elevado. No Crudo de Peixe do Dia a delicadeza do corte encontra a acidez cítrica do ponzu; enquanto o Toast de Camarão Rosa com manteiga de misso e ovas de salmão explode em textura. 

Não ignore a Beterraba Assada. Servida com queijo de cabra e um mel picante fermentado por oito meses, prova que a raiz, quando bem tratada, é protagonista. Outra surpresa são os Dumplings de Costela com chilli crunch oil, que trazem aquele viés cosmopolita e apimentado que o centro pede.

Nos pratos principais, o Mignon Suíno é um deleite de brasilidade, acompanhado por um creme de feijões sedoso e farofa de cambuci. Já a Costela Black Angus, preparada por 16 horas, é a definição de paciência na cozinha: desmancha ao toque do garfo, escoltada pelo conforto do aipim e a potência do queijo Canastra crocante.

Para encerrar, a doçura brasileira ganha contornos modernos. A Mousse de Crocante de Chocolate entrega a densidade certa, mas é a Goiaba com Chantilly de Cumaru que rouba a cena. O uso da baunilha da Amazônia perfuma a sobremesa de forma sutil, enquanto a fina massa sablé traz a crocância necessária para fechar o ciclo de descobertas.

O Itsáry é, em suma, um convite para desacelerar o passo no coração financeiro do Rio e lembrar que a gastronomia autêntica é feita de produto, técnica e, acima de tudo, identidade.

Itsáry
Endereço: Rua Franklin Roosevelt, 194A – Centro – Rio de Janeiro/RJ
Horário de funcionamento: segunda a sexta, 11h30 às 15h30; sábado, 12h às 15h30

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