Juliano Cazarré e a bizarra iniciativa de um curso de masculinidade
Críticas da classe artística e defesa da esposa aumentam enredo que provoca engajamento e lucro
O ator Juliano Cazarré sempre foi mestre em interpretar o “homem de poucas palavras” na teledramaturgia. Do rústico Adauto de Avenida Brasil ao peão Alcides de Pantanal, a carcaça de virilidade sempre esteve lá, pronta para o uso. Mas agora, o ator decidiu que o figurino de macho alfa não deve ficar restrito aos estúdios da TV Globo e resolveu vender o que, até então, parecia ser apenas um arquétipo: a masculinidade.
A nova empreitada do ator – um evento de formação voltado exclusivamente para o público masculino com viés conservador – despertou um barulho que nem o mais dramático capítulo de novela conseguiria sustentar. Entre promessas de “fortalecer o papel do homem”, o que se vê é a tentativa de gourmetizar conceitos que a sociedade, a duras penas, tentava arquivar.
O projeto, que rapidamente ganhou o apelido de Redpill Gourmet nas redes sociais, não é um fato isolado. Ele flutua em uma bolha de influenciadores que decidiram transformar o “ser homem” em um produto de prateleira. Se de um lado temos figuras como Gabriel Breier e Breno Faria do perfil Café com teu pai (que teve o perfil tirado do ar após denúncias ao Ministério Publico Federal), com acusações de uso de misoginia em busca de engajamento, Cazarré tenta dar um verniz intelectual à mesma estrutura.
A diferença aqui é o acabamento. Enquanto os redpills de redes sociais vociferam contra a autonomia feminina em cenários de academia, o ator utiliza sua aura de intelectual católico e pai de família numerosa para vender uma nostalgia de um tempo que nunca foi, de fato, equilibrado.
A reação da classe artística foi imediata e ácida. Colegas de profissão, que dividiram sets e camarins com o ator, não pouparam críticas à iniciativa, classificando-a como um retrocesso pedagógico. As falas não foram contra o direito de ser conservador, mas à mercantilização de uma postura que, sob o pretexto de proteção da família, frequentemente resvala na exclusão e no reforço de estereótipos de gênero que o país tenta, inclusive via legislação, combater.
Atualmente, o Congresso Nacional discute Projetos de Lei que endurecem as penas para a misoginia e o discurso de ódio contra mulheres, justamente em resposta ao crescimento exponencial dessa “indústria do homem ofendido”. O timing de Cazarré, portanto, soa menos como uma missão espiritual e mais como uma leitura oportunista de um nicho de mercado que sente o chão tremer diante do avanço da igualdade de direitos.
No centro do furacão, Letícia Cazarré, esposa do ator, assumiu o papel de escudo. Em reflexões publicadas em suas redes, ela defende o marido e minimiza as críticas dos artistas, reforçando a estética do casal que caminha contra a corrente da modernidade. É uma encenação coreografada: ele, o provedor em busca da ordem; ela, a sentinela da moralidade doméstica.
O problema dessa performance é que ela ignora o mundo real fora das redes sociais e dos condomínios de luxo. Enquanto o ator promove eventos para “resgatar o homem”, a realidade brasileira é de uma masculinidade que ainda mata e silencia. Tentar vender esse modelo como uma solução nobre é, no mínimo, uma falta de percepção social aguda.
No final das contas, o novo curso de Juliano Cazarré parece ser apenas mais um exercício de ego disfraçado de caridade moral. Para quem esperava do ator uma interpretação mais complexa da vida, o que ele entrega é um roteiro previsível, datado e, infelizmente, com uma audiência que ainda confunde grosseria ideológica com virtude masculina.
