Peça Manual dos Bons Modos do Término fala sobre como sobreviver ao fim de uma relação

Espetáculo estreia no Rio no próximo dia 20 de junho

Espetáculo fica em curtíssima temporada no Rio Crédito: Divulgação

Encontrar o ex-namorado em um museu numa terça-feira qualquer não é exatamente um passeio cultural; é um pesadelo logístico de proporções épicas. É justamente dessa premissa tragicamente corriqueira que parte Manual Dos Bons Modos Do Término, espetáculo que entra em cartaz no dia 20 de junho na Sede da Cia dos Atores, na Lapa.

Em tempos onde a norma social exige fingir um desapego irretocável e tratar qualquer resquício de romance com cinismo, o estreante Grupo Cacareco comete a audácia de levar o amor – e o fim dele – absolutamente a sério.

A trama acompanha Helena, que ao esbarrar com um antigo amor, entra em um curto-circuito existencial. Como dita a boa e velha insanidade pós-término, a protagonista não é uma só: ela é interpretada por três atrizes simultaneamente, que encarnam as diferentes versões da mesma mulher estilhaçada pelo tempo e pelas escolhas. No palco, passado e presente se atropelam, misturando a memória da protagonista à presença de três figuras que representam o tal antigo amor e a indigesta parceira atual.

Escrita por Luiza Porto (que também atua) e com direção de Vic Faccin – ambas estreando em voos solo nessas funções –, a montagem não tem a menor pretensão de ser um guia literal de etiqueta afetiva ou uma sessão de terapia barata. A grande sacada do texto é escancarar exatamente a ausência de códigos sobre como agir quando aquela intimidade absoluta vira pó da noite para o dia. Afinal, quem dividia a cama até ontem hoje não sabe se acena de longe ou se finge demência entre um quadro e outro.

Para fugir da armadilha do realismo engessado e deprimente, a direção apostou no delírio. A linguagem flerta sem pudores com o melodrama, a fantasia e o exagero daquelas comédias românticas que todo mundo consome, mas tem vergonha de assumir em público. É um alívio cômico e estético sustentado por um elenco que funciona coletivamente, quase como um coro testemunhal do desastre alheio, mantendo o dinamismo da encenação.

É preciso notar, aliás, a inteligência da escalação, que pinça nomes promissores de uma nova geração com estofo. Para dar conta da montagem, o palco conta com a firmeza de talentos como Bea Felix Felix – que recentemente entregou uma performance como Ritinha no clássico Bonitinha mas ordinária, sob o comando da diretora Julia Stockler —, e a presença magnética de Rafael Guerard, nome que não passou batido por quem acompanha a cena jovem após cravar seu lugar como um dos finalistas do FESTU (Festival de Teatro Universitário) em 2023. Quem também atrai os holofotes é João Vitor Mello, ator e dançarino que recentemente marcou presença no palco do megashow da Shakira, que acabou de sacudir o Rio de Janeiro neste mês de maio.

Nascido da convivência nos corredores do Teatro O Tablado, o Grupo Cacareco entrega uma peça que é tudo, menos cínica. Ao invés de pedir desculpas por ser romântica, a montagem abraça o ridículo inerente a quem se permite viver e perder afetos. Uma lufada de honestidade muito bem-vinda em uma era de relações plastificadas.

Manual dos Bons Modos do Término
Quando: De 20 a 28 de junho; aextas e sábados, às 21h; domingos, às 20h
Onde: Sede Cia dos Atores – Escadaria Selarón (Rua Manuel Carneiro, 12 – Lapa – Rio de Janeiro/RJ)
Ingresso: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia entrada) – venda online

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