Côt Parrilla: Novo restaurante de carnes do Leblon mostra que febre coreana vai muito além do K-Pop

Inspiração argentina e influência coreana se misturam na brasa

O Côt Parrilla abre as portas com uma proposta de parrilla asiática Crédito: Rodrigo Azevedo/Divulgação

Parece que a invasão coreana que tomou de assalto o streaming e as playlists de adolescentes finalmente tomou um rumo mais maduro e, convenhamos, muito mais interessante: o estômago. Num Leblon frequentemente engessado em um mar de italianos genéricos e botecos pasteurizados, a esquina da General San Martin com a Cupertino Durão (onde por décadas reinou o clássico Le Coin) acaba de ganhar contornos bem mais intrigantes. O Côt Parrilla abre as portas com uma proposta de parrilla asiática.

Se o termo soa como uma daquelas invencionices de marqueteiro que costumam dar errado, na prática a realidade sobre a grelha, felizmente, prova o contrário. A ideia de fundir a brasa portenha com a intensidade pungente e fermentada da Ásia não é exatamente a invenção da roda. Quem já se acotovelou no balcão do aclamado Nino Gordo, em Buenos Aires, conhece bem o potencial explosivo (e feliz) desse casamento entre a gordura bovina de qualidade e a pimenta asiática. O mérito do Côt Parrilla, encabeçado pelos jovens sócios Guilherme Brant e Mateus Silva, é trazer essa mesma ousadia gastronômica para o Rio de Janeiro com técnica e sem afetações.

O protagonismo da casa está, como manda o figurino, no fogo. Sob o comando de Alison dos Santos na grelha e com a chef Mariana Rabello (com passagens por Roberta Sudbrack e Elena) liderando a cozinha, o menu é um exercício constante de busca pelo umami. A acidez, o dulçor e o toque defumado aparecem para equilibrar o peso natural das carnes.

Para começar, o Milho Assado da casa ganha as marcas da brasa e é coroado com uma manteiga de missô que entrega notas agridoces intensas de sabor. O Tataki de Wagyu chega selado com precisão, graças ao choque ácido do ponzu cítrico e ao frescor do arroz gohan, finalizado com uma gema cremosa e maionese kewpie.

A cozinha acerta a mão na fritura e na textura do Gyoza de Porco, que chega à mesa dourado e suculento (afinal, gyoza branquelo e molenga é um desrespeito), imerso num molho ponzu de acidez viciante. Na ala das tradições orientais, o Bo Ssam (panceta de porco com pasta ssamjang) exige que o comensal abandone as formalidades e use as mãos para montar as trouxinhas nas folhas, resultando numa farra tátil e cheia de camadas de sabor.

Quando a artilharia pesada da carne vermelha entra em cena, o sotaque coreano não recua. O Chorizo ganha um dry rub oriental que o envolve em especiarias, entregando um toque defumado e um leve, porém presente, apimentado. Mas quem fatalmente silencia a mesa é a Costela 16h. Após horas de cocção lenta, a carne desmancha impudicamente sob um denso e brilhante demiglace de inspiração coreana. É prato que pede amparo, brilhantemente executado pelo Arroz de Cogumelos — profundo, cremoso e com a nota terrosa no volume certo.

Para escoltar essa potência toda de sabores e gordura, a coquetelaria da casa felizmente não se contenta em ser mero adorno. Na ala dos autorais, o Rib on the Rocks é a prova viva de que tequila e jerez podem conversar civilizadamente num copo, escoltados pelo frescor do melão e pelo levemente picante do togarashi — um drinque frutado, herbal e instigante. Já o Baby Beef Smash vai por um caminho deliciosamente refrescante, equilibrando o peso do whisky com a leveza do gengibre, pepino, limão e hortelã, resultando numa bebida deliciosamente cítrica.

E aos que decidem fugir do álcool — e que em outros lugares costumam ser punidos com xaropes excessivamente doces e sucos triviais —, a casa oferece o devido respeito. O Mate Côt eleva o clássico praiano carioca a outro patamar ao misturar chá mate, capim santo, limão e a acidez elegante do yuzu, entregando uma bebida frutada e refrescante que limpa o paladar para a próxima garfada.

No momento de encerrar, sem malabarismos com nitrogênio líquido ou fumaças cenográficas, a confeitaria entrega o que se espera de uma boa refeição: conforto bem executado. A Banana Assada encontra equilíbrio na textura do crumble crocante e na cremosidade do doce de leite, enquanto o Fondant de Chocolate foge da monotonia do açúcar extremo com o contraponto aveludado e elegante do chantilly de mascarpone.

O Côt Parrilla mostra que a fusão entre o ocidente e o oriente, quando feita sem atalhos e com respeito ao ingrediente, resulta em comida que dá vontade de voltar para comer na semana seguinte. O Leblon, finalmente, ganha um choque de novidade que andava fazendo falta.

Côt Parilla
Endereço: Avenida General San Martin, 435 – Leblon 
Horário de funcionamento: De segunda à quarta, das 12h à 0h, de quinta à sábado, das 12h às 01h e Domingo, das 12h às 19h

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