Do fogo ao gelo: Ferro e Farinha volta a Botafogo com carta de drinques de Vitória Kurihara

Mixologista assina novo menu de todas as unidades da pizzaria

Nova carta valoriza ingredientes brasileiros Crédito: Rodrigo Azevedo/Divulgação

Ao falar sobre nova carta de drinques do Ferro e Farinha, Vitória Kurihara, responsável pelo cardápio de bebidas usa uma metáfora: “Tem essa história de renascer das cinzas, que eu acho muito bonita e que tem muito significado para nós”.

Ela se referia ao fogo que fechou temporariamente a unidade da Rua Arnaldo Quintela, embora as outras quatro casas da rede continuaram funcionando. A reabertura a bartender é o destaque, afinal a novidade da vez não passa pelo forno: vai direto para o copo.

Em uma pizzaria tão premiada – está no 31º lugar do ranking mundial 50 Top Pizza e heptacampeã de VEJA RIO Comer & Beber – ninguém estranharia se o bar continuasse cumprindo o papel de coadjuvante bem-educado, daqueles que despacham um negroni honesto enquanto a mesa não vaga. Mas a casa preferiu não se acomodar.

A nova carta, batizada de Entre Ferro e Gelo, traz a assinatura da curitibana. Vitória venceu o World Class Brasil 2023 — a competição da Diageo que funciona como a Copa do Mundo da coquetelaria — logo na primeira tentativa, cravando seu nome entre os seis finalistas da etapa global no mesmo ano. A afinidade com o chef vai além da burocracia comercial: “Eu me inspiro muito no trabalho do Sei. A gente conversa sobre ingredientes, referências e até a parte histórica da cozinha e da coquetelaria”, pontua.

O resultado mira um equilíbrio raro no balcão: ambição técnica sem afetação. “A carta traz a essência do Ferro: muita técnica e muito sabor. É uma coquetelaria mais disruptiva, mas em um cardápio onde não é difícil se encontrar, valorizando ingredientes brasileiros”, resume Vitória. Entre as técnicas aplicadas sobressai o milk punch, método de clarificação que, nas palavras da própria mixologista, “é muito mais fácil de harmonizar com os nossos pratos e pizzas”. Traduzindo para o bom português: o copo não briga com o prato.

O trecho mais arriscado do menu é também o mais bem resolvido: a confeitaria líquida. Drinque de sobremesa costuma ser sinônimo de calda industrial, chantilly de spray e ressaca moral na manhã seguinte. O Pannacotta desmonta esse preconceito unindo vodca, o peso amadeirado do Jerez Oloroso e frutas vermelhas sob uma leve espuma de creme. O Oloroso, com suas notas de nozes e oxidação elegante, faz o papel do adulto da sala: segura o doce pela gola e impede que a memória da sobremesa italiana descambe para o milkshake. Ninguém está bebendo pudim de canudinho. É um coquetel que sabe de onde veio e não pede desculpas por ter personalidade.

O Canolli — assim mesmo, com a grafia simplificada da casa — segue pela vertente oposta. Gim, flor de sabugueiro, baunilha, limão e laranja confitada resultam em uma mistura cítrica e floral, em que o açúcar entra como perfume, jamais como xarope. É o clássico siciliano adaptado a uma versão que prefere sussurrar a gritar no paladar.

O argumento mais convincente da noite, porém, atende pelo nome de Cumaru Punch. Cachaça, maracujá e baunilha preenchem a base, enquanto o cumaru ralado na hora — a semente amazônica que teimam em chamar de baunilha brasileira — atinge o olfato antes do primeiro gole. Uma brasilidade sem fantasia de quiosque, sem guarda-chuva de papelão e sem mendigar aplausos: tropical, aromática e plenamente adulta.

Numa cidade onde o spritz alaranjado virou fardamento obrigatório de fim de tarde, o drinque da casa aceita a tendência, mas rejeita o uniforme. O Ferro Spritz substitui o amargo convencional por Tanqueray Sevilla, vinho de colheita tardia, cranberry e hibisco. “É bem diferente do que se vê no dia a dia da coquetelaria. Ficou mais leve e menos amargo”, explica Vitória, que buscou no verão europeu a leveza para a ala dos borbulhantes.

Quem quiser percorrer o restante da carta encontra o Treme Treme, com jambuzada, abacaxi, tangerina e espuma de gengibre — feito sob medida para quem acredita que coquetel bom é aquele que faz a língua formigar. O Pozione concilia Ramazzotti Rosato, gengibre, cupuaçu e flor de mel. Na linha mais solar, figuram o Tange, com Campari, tangerina, abacaxi, espumante e manga desidratada, e o Vírtis, combinação de gim, figo, abacaxi e espumante. Já o Cherry Lady faz as vezes de porta de entrada para quem não abre mão de perfil clássico, mesclando gim, amaretto, limão, cereja e Angostura.

Na boca de um entusiasta amador, a intenção final do menu soaria como frase pronta de rede social. “Mais do que tudo, a gente quer entregar aquele sabor que traz conforto. Um abracinho mesmo, de forma líquida”, arremata Vitória. A pizza continua sendo motivo de sobra para enfrentar a fila. A diferença é que, agora, pedir apenas um refrigerante para acompanhá-la virou um atestado de preguiça gustativa.

Related Posts

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *