Rita von Hunty lança livro Formas de Narrar um Corpo

Obra inaugura a Coleção Reticências da Editora Planeta

Personagem de Guilherme Terreri se aventura na literatura Crédito: Divulgação

Depois de anos revolucionando a educação popular no país e após anunciar uma pausa necessária nas plataformas digitais — em uma decisão contra o esgotamento emocional e a moedora de carne dos algoritmos —, Rita von Hunty deixa o YouTube para inaugurar uma nova trincheira nas prateleiras ao lançar o livro Formas de Narrar um Corpo.

Como era de se esperar de alguém com esse estofo intelectual, a estreia na literatura foge léguas das rasas coletâneas de autoajuda que costumam infestar as listas de mais vendidos de influenciadores. A obra é um ensaio denso, porém acessível, que inaugura a Coleção Reticências da Editora Planeta.

Nas páginas, a autora (com linhas do autor) articula conceitos da psicanálise, literatura e política para questionar quem, afinal, tem a permissão da sociedade para existir, ditar regras e ocupar os espaços de saber.

Ao desmontar discursos que o poder estabelecido tenta vender covardemente como “neutros” ou “universais”, a obra escancara os interesses ideológicos que regulam nossas identidades. É um texto que demanda atenção e cérebro ativo, e que recompensa quem lê com clareza e ferramentas reais de questionamento.

É fascinante observar a simbiose entre criador e criatura, que se provou uma das estratégias intelectuais mais brilhantes dos últimos tempos. De um lado, temos Guilherme Terreri, o arte-educador, pesquisador e ator, exausto do pessimismo político que insiste em assombrar a realidade brasileira. Do outro, Rita, a figura irretocável e irônica que desfere golpes demolidores nas estruturas de poder com a leveza de quem apenas ajeita um colar de pérolas. Rita é fala; Guilherme é escuta.

É preciso admitir: em uma década na qual o debate político e social frequentemente se assemelhou a um tiroteio caótico de opiniões rasas e dancinhas em redes sociais, foi necessário que um homem vestido com o rigor estético de uma dona de casa dos anos 1950 viesse colocar alguma ordem na sala. Guilherme, o cérebro por trás da peruca impecavelmente esculpida de Rita von Hunty, fez o que boa parte da academia não conseguiu: traduziu teoria crítica densa para o grande público sem subestimar a inteligência de absolutamente ninguém.

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