Casa Magnólia revive anos 80/90 resgatando memórias afetivas

Restaurante aposta em revival com rigor técnico e zero cafonice

Filé com fritas ao poivre é um dos destaques do menu Crédito: Rodrigo Azevedo/Divulgação

Em um cenário gastronômico frequentemente saturado por espumas, releituras pretensiosas e pratos desenhados exclusivamente para o feed das redes sociais, a abertura de um endereço que ousa olhar para o passado sem nostalgia barata é um acontecimento. Na esquina das ruas Garcia d’Ávila e Redentor, a recém-inaugurada Casa Magnólia faz exatamente isso.

O ambiente recusa o estigma de restaurante temático caricato. A arquitetura evoca a sobriedade das antigas mercearias (uma escolha que faz sentido definitivo quando se descobre que o imóvel abrigou um armazém na década de 1920). A trilha sonora é responsável por costurar a atmosfera: uma seleção analógica e precisa de clássicos musicais que funciona como um discreto portal temporal.

O som ambiente desacelera o ritmo frenético de Ipanema e prepara o paladar para uma cozinha de conforto, comandada pela chef Aline Cury sob a competente supervisão executiva de Viviane Mello. O menu não se apoia no truque da novidade efêmera, em vez disso finca o pé com uma proposta de permanência, reabilitando receitas que embalaram os almoços de domingo e os jantares boêmios das últimas décadas do século passado.

Deixando de lado formalidades, a dinâmica para começar a refeição é deliciosamente simples: um balcão repleto de petiscos e comidinhas vendidos por peso, um formato puramente carioca que convida à demora e ao compartilhamento. Na ala das opções frias, destacam-se o vinagrete de polvo, a nostálgica carne louca e uma delicada salada de bacalhau com um crocante grão de bico frito.

A personalidade do menu de petiscos quentes se manifesta com grande destaque é o pastel de bochecha. Longe da mediocridade dos recheios compactos de carne moída industrial, a cozinha entrega uma massa perfeitamente frita, sequinha e abarrotada de bochecha bovina cozida lentamente até desmanchar. O resultado é um recheio de colágeno pronunciado, untuoso e de sabor profundo, equilibrado com um bem-vindo molho de pimenta.

Nos pratos principais, a Casa Magnólia faz uma ode aos menus clássicos de instituições extintas ou tradicionais do Rio, como Le Coin e Alvaro’s. A grande prova de fogo técnica da cozinha surge em um item aparentemente simples do cardápio: o bife com fritas, que aqui assume sua melhor identidade francesa como filé ao poivre. O medalhão de filé-mignon é um monumento ao ponto da carne. Servido com uma crosta impecavelmente selada e o interior vermelho, quente e suculento, o corte nada em um molho denso, sedoso e com a picância pungente da pimenta-do-reino em grãos, perfeito para chuçar as batatas fritas que o acompanham.

Releitura da Banana Split é um dos grandes acertos da casa Crédito: Rodrigo Azevedo/Divulgação

É na ala doce, contudo, que o restaurante exibe sua faceta mais autoral e divertida, resgatando ícones açucarados que a alta gastronomia injustamente baniu sob o pretexto de obsolescência. O primeiro acerto crítico é a reabilitação do creme de papaia. Sobremesa obrigatória nos anos 90, ela costumava ser arruinada pelo uso de licores industriais de cassis, excessivamente doces e sintéticos. Na Casa Magnólia ganha contornos de alta gastronomia, com a companhia de um licor de jabuticaba produzido na própria casa. A substituição é um golaço: a acidez natural e o tanino sutil da jabuticaba cortam o açúcar do mamão, transformando um clichê datado em uma sobremesa elegante e fresca.

Para fechar o percurso nostálgico, a casa orgulha-se de ser um dos raríssimos redutos na Zona Sul a ostentar banana split no cardápio. O doce, que marcou a infância de gerações nas décadas de 70 e 80, ressurge sem nenhuma vergonha de ser feliz. A fruta ganha uma camada de açúcar maçaricado, servida ao lado de um sorvete de baunilha de ótima estirpe, farofa crocante e a indispensável cereja no topo. É a prova definitiva de que a memória afetiva, quando tratada com respeito ao ingrediente e domínio técnico, é o melhor tempero possível.

Para acompanhar, a carta de bebidas assinada pelo mixologista Marcelo Emídio mira certeira no que o carioca realmente gosta de beber. Há uma oferta equilibrada de drinques autorais e clássicos executados sem frescura, além de uma seleção de batidas cremosas e caipirinhas refrescantes, além dos chopes.

E o casarão ainda tem espaço pra novidades futuras. Em aproximadamente três meses, os empresários Fábio e Duda Dupin, nomes à frente do Grupo Pulse, inauguram no segundo andar a Mercearia Magnólia. O espaço reviverá o conceito original do imóvel centenário, funcionando como um ponto de parada para sanduíches, embutidos e boas bebidas, além de permitir que o cliente leve para casa os molhos, massas e petiscos da grife.

Assim a Casa Magnólia prova que olhar para trás, com competência técnica e afeto, pode ser o passo mais vanguardista da temporada.

Casa Magnólia
Endereço: Rua Garcia D’ávila, 151 – Ipanema – Rio de Janeiro/RJ
Horário de funcionamento: Terça e quarta, das 12h às 15h e das 18h às 23h; quinta e sexta, das 12h às 15h e das 18h à 0h; sábado, das 12h às 15h e das 18h à 0h; e domingo, das 12h às 17h. 

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