Restaurante Emile: Quando três ingredientes dizem mais que um menu de dez etapas
Sob comando do chef Bernabé Simón Padrós, novo menu mostra que excelência pode vir da simplicidade
Em uma cidade que frequentemente confunde ostentação com excelência, o Hotel Emiliano, de frente para o mar de Copacabana, insiste na rara e bem-vinda arte do luxo low profile. É um reduto onde a sofisticação não precisa gritar para ser notada; ela se manifesta no silêncio acústico, na arquitetura limpa e, principalmente, no prato. É exatamente essa filosofia de menos ego e mais essência que pauta a nova fase do restaurante Emile, agora sob comando do chef Bernabé Simón Padrós.
O chef argetino traz na bagagem o peso de ter integrado a equipe do estrelado Central, em Lima, ao lado de Virgilio Martínez e Pía León. Mas, para alívio geral, ele deixou as firulas conceituais na Cordilheira dos Andes e trouxe para o Rio de Janeiro apenas o que importa: técnica impecável a serviço do sabor.
Se há um traço de genialidade na nova proposta do Emile, é a sua recusa em entediar o comensal. Em vez de seguir os cardápios que mais parecem teses de mestrado detalhando “a jornada emocional de uma beterraba”, o menu do Emile é um antídoto contra essa prolixidade, abordando um pragmatismo elegante: os pratos são escolhidos por seus três ingredientes base. E ponto. O cardápio apenas elenca a tríade de protagonistas de cada criação, grande parte pinçada de pequenos produtores do interior fluminense.
Também caiu por terra aquela velha e engessada ditadura de entrada, prato principal e sobremesa. A ideia é que a mesa funcione de forma dinâmica, pedindo, compartilhando e focando no que realmente importa: a comida.
Quando a comida começa a chegar ao centro da mesa, a dinâmica de compartilhamento justifica a ausência de rótulos limitantes. O Peixe do Dia (na nossa visita, um esplêndido olho de boi) surge em um tiradito irretocável, ganhando a companhia de leite de tigre com yuzu kosho e alga nori. É uma acidez cortante que desperta o paladar no primeiro segundo e resulta num molho que, francamente, dá vontade de comer às colheradas de tão bom.
No mesmo compasso, o gaspacho com cavaquinha e melão é a prova de que a doçura contida da fruta e a acidez de um caldo frio bem executado são o palco perfeito para destacar o frescor do crustáceo. Em seguida, o atum curado vem acompanhado de alcaparrões que trazem o sal necessário, além de batata chips para a textura e salsa — uma combinação que não tenta reinventar a roda, mas a faz girar perfeitamente.
A transição para os sabores mais terrosos e quentes revela ótimas provocações. A pupunha na brasa surge com pimenta e kimchi, servida como uma tirada brilhante: é um “anticucho” vegetariano potente que faz qualquer um esquecer que a receita original andina exige coração de boi.
Já a pescada com feijão Santarém traz o peixe naquele ponto exato e cada vez mais raro — firme, mas que desmancha na boca —, amparado pelo caldo do feijão e um purê aveludado com sementes de abóbora que entrega conforto puro. Esse mesmo conforto é elevado no prato de brócolis e aspargos, servidos num ponto cirúrgico entre o crocante e o al dente, temperados com uma picância sutil e coroados pela rusticidade de uma palha de batata-doce.
Dada a proposta da casa de compartilhar criações, é bobagem classificar o que vem depois como prato principal, mas o polvo com mexilhões e arroz caldoso chega em uma porção naturalmente um pouco mais farta. É um abraço reconfortante onde o molusco, que em mãos erradas vira borracha, derrete na boca nadando em um arroz rico, profundo e cheio da essência do mar.
Para arrematar, o pudim de coco, cupuaçu e citron foge com louvor da doçura infantil e enjoativa que assombra muitos menus. A acidez vibrante corta a gordura do coco, entregando uma sobremesa madura e fresca que convida à próxima colherada sem pesar na consciência.
Para quem gosta de mocktails, a mistura brilhante de água de coco, limão, hortelã e manjericão faz as honras da casa, disputando atenção com a ousadia aromática do coquetel de café, laranja e canela — complexo, terroso e com a acidez cítrica no ponto certo.
Toda essa experiência ganha contornos ainda melhores graças ao serviço, que se move pelo salão com a mesma discrição que pauta o hotel, mas de um jeito profundamente carioca. Longe daquele estilo de atendimento blasé galerista, a equipe do Emile tem bossa e charme. O atendimento é leve, com um sorriso no rosto que parece genuíno, extremamente atencioso e personalíssimo, merecendo todos os elogios.
No fim das contas, a nova fase do restaurante é uma ode à inteligência de quem come. É a prova cabal de que a boa gastronomia não precisa de manual de instruções — precisa apenas de excelência na matéria-prima, de um chef que saiba a hora exata de parar de inventar moda e de um salão que te faça sentir bem-vindo. E isso, convenhamos, é o maior luxo de todos.
Restaurante Emile
Endereço: Hotel Emiliano (Av. Atlântica, 3.804 – Copacabana – Rio de Janeiro/RJ)
Horário de funcionamento: Diariamente, das 6h às 11h, 12h às 15h e 19h às 23h
